Espetáculo inspirado em “A caverna”, de José Saramago, marca o encerramento da temporada de 30 anos do Teatro Diadokai

Depois de percorrer cidades do interior de Minas Gerais e celebrar três décadas de trajetória com uma circulação especial, o Teatro Diadokai encerra as comemorações de seus 30 anos com uma curta temporada de “O amor possível”, no Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. As apresentações acontecem nos dias 24, 25 e 26 de julho, reunidas sob o título “Diadokai 30 anos apresenta: O amor possível”.

Primeira adaptação teatral do romance “A caverna”, de José Saramago, único escritor de língua portuguesa laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, o espetáculo coloca em cena a história do oleiro Cipriano Algor, da viúva Isaura Madruga e do cão Achado. Em um solo interpretado por Priscilla Duarte, a narrativa acompanha personagens que enfrentam transformações profundas em um mundo marcado pela substituição do artesanal pela produção em massa, enquanto descobrem que ainda há espaço para o afeto, a amizade e o amor. Priscilla assina a direção ao lado de Ricardo Gomes e a adaptação do texto com François Kahn.

A montagem concentra-se na delicada história de amor entre dois viúvos e na relação de fidelidade entre o oleiro e seu cachorro, preservando a musicalidade e a oralidade características da escrita de Saramago. O resultado é um espetáculo que discute temas contemporâneos como envelhecimento, trabalho, consumo, tecnologia, pertencimento e reinvenção, sem perder de vista a dimensão profundamente humana de seus personagens.

“Quando começamos a adaptar A caverna, percebemos que havia um fio narrativo que atravessava todo o romance: a história de amor entre Cipriano Algor e Isaura Madruga. Escolhemos contar essa trajetória porque ela revela algo muito simples e, ao mesmo tempo, muito raro: o amor possível entre pessoas comuns”, afirma a atriz, diretora e adaptadora Priscilla Duarte.

A encenação aposta na simplicidade como linguagem. Em cena, poucos elementos compõem o espaço: uma mesa, uma cadeira, ferramentas de oleiro e o barro, que é modelado ao vivo durante a apresentação. A atriz interpreta todos os personagens da história, alternando narradora e figuras da trama apenas por meio do corpo, da voz e de pequenas transformações cênicas.

“O barro precisava estar presente porque ele representa a cerâmica, uma arte ancestral que reúne terra, água, fogo e ar. Sua plasticidade traduz também a capacidade humana de se transformar. O espetáculo propõe desacelerar o tempo e criar um espaço de encontro verdadeiro entre atriz e espectadores”, explica Priscilla.

Desde sua estreia nacional, em 2023, “O amor possível” vem construindo uma trajetória marcada pelo diálogo com diferentes públicos. A montagem integrou o Festival Solos Férteis, em Brasília, passou pelo Fórum das Letras de Ouro Preto, pelo X Festival de Teatro e  XX Feira do Livro, de Itabirito. Realizou também encontros com grupos jovens de teatro, apresentações em comunidades quilombolas, centros culturais, instituições de longa permanência para idosos e cidades do interior mineiro, sempre acompanhadas de ações formativas e encontros com o público.

“Cada vez mais sentimos que nossa missão é levar o teatro onde ele ainda é raro. Quando uma senhora nos disse que nunca tinha visto uma peça na vida, entendemos que estávamos exatamente onde deveríamos estar. É esse tipo de encontro que dá sentido ao nosso trabalho”, comenta Priscilla.

Para a atriz, “O amor possível” sintetiza toda a trajetória construída pelo Diadokai ao longo de três décadas. “Esse espetáculo reúne, de forma muito madura, tudo o que vivemos nesses anos de pesquisa, criação e viagens. Hoje penso que fazer teatro não é o que me torna uma pessoa melhor; é o que me torna uma pessoa. ‘O amor possível’ encerra um ciclo e, ao mesmo tempo, abre outro”.

A temporada em Belo Horizonte marca o encerramento da circulação comemorativa dos 30 anos do Teatro Diadokai e oferece ao público da capital a oportunidade de assistir ao espetáculo antes do fechamento deste ciclo histórico do grupo.

Sobre o Teatro Diadokai – 30 anos

Fundado em 1996, o Teatro Diadokai nasceu no Rio de Janeiro a partir da parceria entre Priscilla Duarte e Ricardo Gomes, iniciada ainda na graduação em Artes Cênicas da UNIRIO. A pesquisa artística do grupo desenvolve-se em torno da dramaturgia da atuação sob uma perspectiva transcultural, fortemente influenciada pelos anos de formação dos dois artistas no Teatro Tascabile di Bergamo, na Itália, uma das principais referências mundiais na pesquisa das tradições cênicas asiáticas.

Ao longo de três décadas, o Diadokai construiu uma trajetória marcada pela criação de espetáculos, projetos pedagógicos, circulação nacional e internacional e intercâmbios com importantes artistas e pesquisadores. Entre seus trabalhos estão o premiado “Pedro e o lobo”, que permaneceu dezoito anos em repertório e realizou mais de 350 apresentações no Brasil e na Europa; “A casa de lá”, fruto de pesquisa no Vale do Jequitinhonha; “Fim de partida”, de Samuel Beckett; e o espetáculo de rua “Amantes do Sereno”.

Desde 2009, o grupo desenvolve suas atividades em Minas Gerais, transitando principalmente entre Belo Horizonte e Ouro Preto, conciliando produção artística, pesquisa acadêmica, formação de artistas e ações culturais voltadas à ampliação do acesso ao teatro.

Serviço
Diadokai 30 anos apresenta: O amor possível
Datas: 24, 25 e 26 de julho
Horários: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h
Local: Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537 – Centro – Belo Horizonte)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), disponíveis pelo Sympla.

Mais informações: https://www.instagram.com/diadokai/

FOTOS: aqui.

VÍDEO: https://www.youtube.com/watch?v=aZauYIag84k


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